Números complexos


À medida que os alunos progridem ao longo da sua escolaridade, vão conhecendo conjuntos de números cada vez maiores, mais ricos, aos quais pertencem os números já seus conhecidos e números novos. No início do primeiro ciclo, os nossos alunos trabalham apenas com os números naturais e com o zero. Mais tarde, tomam conhecimento dos números fraccionários sendo-lhes mostrado por que motivo estes números são necessários. Depois, já no 6º ano de escolaridade, surge a necessidade de trabalhar com números negativos. Em geral estes números são associados às temperaturas negativas, à altitude abaixo do nível médio das águas do mar, ao número que é associado num elevador aos andares que estão na cave, etc. Os alunos percebem bem, se recorrermos a exemplos destes, da grande necessidade de trabalhar com números negativos. Por outro lado, a existência deste tipo de números permite-lhes fazer algo até agora impossível que é efectuar uma subtracção em que o aditivo é menor do que o subtractivo. Seguidamente, no 9º ano, com a familiarização da resolução de equações do 2º grau, torna-se óbvia a necessidade de lidar com números irracionais. Mais tarde, os alunos tomam conhecimento do conjunto dos números reais que, muitos pensam ser o maior conjunto com o qual os matemáticos lidam. Apesar de neste conjunto algumas equações do 2º grau serem impossíveis, isso não choca ninguém pois essas equações envolvem raízes quadradas de números negativos que, não existem neste conjunto. Por este motivo, alguns alunos estranham um pouco quando, chegando ao terceiro período do 12º ano de escolaridade, tomam conhecimento da existência de “novos números”, do conjunto dos números complexos. Eu apercebo-me de que, há muitos alunos a quem custa de facto, aceitar a existência de raízes quadradas de números negativos. Basta olhar para a cara de alguns alunos, quando estamos a iniciar o capítulo dos números complexos, para percebermos isso. No entanto, esta surpresa inicial, funciona muitas vezes como estímulo à aprendizagem. Os alunos vêem uma espécie de “magia” na existência destes números.

No programa elaborado pelo Ministério da Educação, é referida a importância que tem neste capítulo o facto do professor explicar aos alunos que estes números estão tão relacionados com a realidade do nosso mundo como qualquer um dos outros que eles já conheciam. Nas minhas aulas, eu costumo dar exemplos relacionados com a Física nomeadamente com o electromagnetismo. No entanto penso que, também é importante relacionar a necessidade da existência dos números complexos com a Matemática. Por este motivo, penso que, a actividade que proponho a seguir é bastante importante para os alunos. Trata-se de uma actividade em que se pretende mostrar aos alunos a necessidade da existência dos números complexos na resolução de equações matemáticas do terceiro grau e a par disso ensinar um pouco de História da Matemática. Verifica-se que, nem todas as equações do 2º grau têm solução no conjunto dos números reais, no entanto, essas equações impossíveis traduzem problemas que se verifica empiricamente serem impossíveis também. Ora não é isto que se passa com algumas equações do terceiro grau.

Após ter sido resolvido o problema da resolução de equações do 2º grau, passaram muitos séculos até que os matemáticos conseguissem resolver equações do 3º grau. No princípio do século XVI, no Renascimento, algebristas italianos obtiveram êxito na resolução deste tipo de equações. Foi Cardano, na sua obra “Ars Magna”(1545) quem primeiro expõe a resolução das equações do 3º grau.

Para as equações do tipo:

x³+px²+q com p > 0 e q > 0, se


então o número real

é solução da equação.

Em breve, surgiu um problema que mostrou que havia necessidade de considerar um novo conjunto de números que resultaria da ampliação do conjunto dos números reais, no qual fosse possível calcular raízes quadradas de números negativos.

Consideremos o seguinte problema:

“Seja v o volume de um cubo de aresta x e v’ o volume de um paralelepípedo rectângulo cuja área da base é 3 e a altura é igual à aresta do cubo. Pretende determinar-se x de tal modo que v = v’+ 1”

Para resolver este problema, é necessário resolver a equação: x³ = 3+1. Utilizando a fórmula exposta por Cardano, chegamos à conclusão de que o número

é solução da equação.

Aparece-nos nesta expressão a raiz quadrada de um número negativo. Para quem ainda não tomou conhecimento da existência dos números complexos, o raciocínio lógico é o seguinte: como não existem raízes quadradas de números negativos, o problema não tem solução. O problema é que, isso não é verdade! Se por exemplo  supusermos que x = 1.5 obtemos que = 3.375 e v'+1 = 3 x 1.5 + 1 = 5.5, neste caso v é inferior a v' + 1. No entanto, se tomarmos x = 3 obtemos que = 27 e v’+1 = 3 x 3 + 1 = 10, agora já temos v maior do que v’ +1. Então deverá existir algum número real x que seja solução daquela equação. Este facto levou vários matemáticos a pensarem que, apesar de as raízes quadradas de números negativos não terem significado, permitem dar seguimento a cálculos que nos conduzem a valores reais. Alguns matemáticos tais como Cardano e Bombelli decidiram trabalhar com este tipo de raízes tendo chegado a resultados correctos.

Consideremos de seguida um exemplo bastante simples. Como é fácil verificar, o número 4 é solução da equação   = 15+ 4. Basta substituir a incógnita por 4 e fazer os cálculos. Utilizando a fórmula de Cardano, Bombelli começou por mostrar que:

Porque

Por outro lado

Portanto, os dois números são iguais. De modo análogo, mostra que 

Utilizando depois a fórmula de Cardano conclui que

que, como já foi referido, é um número real e uma solução da equação.

Penso que este exemplo simples é o suficiente para convencer os alunos do 12º ano de escolaridade da necessidade de alargar o conjunto dos números reais a outro tipo de números que, como já vimos podem ser muito úteis na resolução de um certo tipo de equações. No meu trabalho disponível na página da minha escola, eu começo por expor o que está aqui escrito e depois sugiro-lhes uma tarefa que consiste no seguinte:

Considera o seguinte problema:

Seja v o volume de um cubo de aresta x, e v' o volume do paralelepípedo rectângulo cuja área da base é 15 e cuja altura é igual à aresta do cubo. Pretende determinar-se x de tal modo que v = v' + 4.”

1-   Determina v e v’ para os valores de x iguais a 3.3 e 5.2, respectivamente

2-   Escreve os valores encontrados no ponto anterior.

3-   Justifica que o problema tem que ter uma solução real. Podes considerar a função 

f(x) = - 15 x - 4 

    e utilizando o Teorema de Bolzano justificar que tem pelo menos um zero no intervalo ]3.3,5.2[ 

4-  Recorrendo à tua calculadora gráfica, determina a solução real deste problema. Confirma-o algebricamente.

5-    Aplica a fórmula de Cardano para resolver a equação. Qual te parece ser a conclusão a tirar quanto à existência de soluções reais para esta equação?